Expedição Francisco de Orellana 2026 - Parte 2

Período: Setembro de 2026

De Tabatinga até Manaus

De Tabatinga até Manaus


Atualizado em: 16 de setembro


A Expedição Francisco de Orellana 2026 começou em Playas, na costa do oceano Pacífico. De lá, seguimos através dos Andes até Quito. Então, voamos para Iquitos, onde iniciamos a etapa fluvial da viagem. Seguimos pelo rio Amazonas em direção ao leste. Chegamos à tríplice fronteira entre Peru, Colômbia e Brasil. Ingressamos no território brasileiro em Tabatinga. A partir daqui, começa uma nova etapa da expedição: descer o Amazonas através do Brasil até alcançar sua foz no oceano Atlântico.

Ir para a Parte 1 - Do oceano Pacífico até Tabatinga
Ir para a Parte 3 - De Manaus até Santarém

13 de setembro

Partimos de Tabatinga às 7h com destino a Tefé. Chegada prevista para as 4h da manhã, ou seja, 21 horas de viagem. Aproximadamente 940 km descendo o rio Solimões. Como sabemos, o rio passa a chamar-se Amazonas a partir do encontro com o rio Negro, o que ocorre em Manaus. 

Estamos a bordo do Glória de Deus VII. Embarcação com 48 metros de comprimento, capacidade para 165 passageiros em duas seções. Poltronas confortáveis semelhantes às de um ônibus, dispostas em fileiras de sete. Tem também um pequeno deck inferior com 4 camas de casal e 4 de solteiro, que podem ser contratadas a bordo por 50% adicionais sobre o preço da passagem. Na popa existe um deck com uma mesa e assentos nas laterais. A traseira é aberta e permite contemplar o rio.

Preço da passagem 880 reais = 172 dólares. Inclui café da manhã, almoço e jantar. Internet até Tefé custa 50 reais. É possível assistir a Rede Globo em transmissão direta. De vez em quando colocam um filme.

Estão previstas sete paradas em localidades ribeirinhas antes de chegar a nosso destino. Já paramos em 4 até agora. As paradas são rápidas. Sempre há passageiros desembarcando e embarcando. O barco está com aproximadamente um terço de sua capacidade, então é possível deitar sobre poltronas contíguas.

 

É relevante notar que a bagagem é embarcada no compartimento de carga e não temos acesso a ela. Por isso, trouxemos pequenas mochilas com itens essenciais: agasalhos,  comida de emergência, equipamentos eletrônicos, documentos. É conveniente trazer travesseiro inflável para maior conforto ao dormir. Fomos alertados de que o ar condicionado fica muito frio durante a noite.

Notamos que a maioria dos passageiros regulares prefere ocupar a seção posterior. Deduzimos que seja para evitar o incômodo e o ruído da entrada e saída de passageiros nas paradas. Mas não é recomendável ficar muito atrás devido ao forte ruído do motor de 800 hp. 

Continuamos admirando a grande largura do rio. Ainda mais admirados ficamos quando o piloto disse que as águas sobem mais de 10 metros no auge da estação chuvosa, lá por fevereiro. Ainda segundo o piloto, atualmente o canal de navegação tem de 17 a 23 metros de profundidade. É muita água!!!

 


14 de setembro

Chegamos a Tefé às 4h 40min, depois de passar frio a bordo da lancha. Desembarcamos no terminal flutuante. Ao sair para a praia, molhamos os pés porque alguém deixou a prancha mal  colocada, parcialmente submersa. Alojamo-nos no Ega Hotel, previamente reservado via WhatsApp.

Dormimos pouco mais de uma hora, tomamos café da manhã e fomos ao quartel-general da 16a. Brigada de Infantaria de Selva, a Brigada das Missões.  Cumprimentamos o General Morgero, conhecido desde que ele era tenente no 1o. BIS e amigo desde os tempos do Sudão.

Regressamos ao centro da cidade e compramos passagens de lancha rápida para Manaus. Seguiremos viagem 4a. Feira de madrugada. 

Aproveitamos para percorrer a região do porto e o centro da cidade. Ao fotografar os edifícios a partir da praia, vimos claramente as marcas da água em seu ponto mais alto na época da cheia. Encontram-se uns 5 ou 6 metros acima do nível atual, que ainda vai baixar mais.

O Seminário São José, às margens do Lago de Tefé, é um dos edifícios históricos mais importantes da cidade e está diretamente ligado à consolidação da presença da Igreja Católica no Médio Solimões. Sua origem remonta ao trabalho dos missionários espiritanos, depois que Tefé se tornou sede de uma Prefeitura Apostólica em 1910, sob a direção de Monsenhor Miguel Alfredo Barrat. 

À noite, tivemos a oportunidade de jantar no Casarão das Missões, onde funcionam o círculo militar e o hotel de trânsito, em companhia do Comandante do Exército, de sua comitiva, da família militar e de autoridades locais. Foi um momento de agradáveis recordações dos velhos tempos.

Procuramos também conhecer um pouco mais da história da cidade.

Tefé, situada às margens do lago de mesmo nome, próximo à confluência com o rio Solimões, é uma das cidades mais antigas e historicamente importantes do interior do Amazonas. Suas origens remontam ao final do século XVII, quando missionários atuavam na região junto às populações indígenas. Entre eles destacou-se o jesuíta Samuel Fritz, que estabeleceu missões ao longo do Solimões e do Amazonas em uma época em que portugueses e espanhóis ainda disputavam a soberania sobre grande parte da Amazônia.

No início do século XVIII, os portugueses avançaram para oeste e consolidaram sua presença na região. A antiga missão foi transferida e passou a ser conhecida como Ega, nome que conservou durante o período colonial. Sua localização, no caminho fluvial entre o baixo Amazonas e os territórios mais ocidentais da bacia, transformou-a em ponto estratégico para a ocupação portuguesa e para as comunicações ao longo do Solimões.

Ega tornou-se também um importante centro administrativo e comercial. No século XVIII, integrou a vasta Capitania de São José do Rio Negro e serviu como ponto de apoio para expedições, autoridades e viajantes que percorriam o interior amazônico. A consolidação portuguesa nessa região teve importância decisiva na formação das fronteiras do Brasil, que avançaram muito além da linha originalmente estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas.

No século XIX, a localidade recebeu viajantes e naturalistas europeus interessados na extraordinária diversidade da Amazônia. Um dos mais conhecidos foi o inglês Henry Walter Bates, que permaneceu durante anos na região de Ega estudando a fauna amazônica. Suas observações contribuíram para importantes trabalhos sobre evolução, adaptação e mimetismo, posteriormente reunidos em seu célebre livro The Naturalist on the River Amazons.

Em 1855, Ega foi elevada à categoria de cidade e passou a chamar-se Tefé, recuperando um nome de origem indígena associado à região. Nas décadas seguintes, participou dos ciclos econômicos amazônicos, particularmente do comércio de produtos florestais e, mais tarde, da borracha. Embora distante de Manaus e dos grandes centros nacionais, manteve sua importância como núcleo urbano e administrativo do médio Solimões.

Muito antes da fundação de Tefé, Francisco de Orellana passou por esta região em 1542, durante a primeira navegação europeia conhecida de toda a extensão do Amazonas, dos Andes ao Atlântico. Quase um século depois, em 1637–1639, Pedro Teixeira percorreu o mesmo grande eixo fluvial em sentido contrário e depois retornou, numa expedição que demonstrou a capacidade portuguesa de alcançar os territórios amazônicos muito a oeste da linha de Tordesilhas. As viagens dos dois exploradores, embora realizadas antes do surgimento de Tefé, inserem a região na história das primeiras grandes travessias europeias da Amazônia.

Séculos mais tarde, Cândido Mariano da Silva Rondon também esteve ligado a Tefé e ao médio Solimões no contexto das expedições de reconhecimento, integração territorial e implantação das comunicações no interior brasileiro. Seu trabalho na Amazônia, sobretudo nas primeiras décadas do século XX, fazia parte do esforço do Estado brasileiro para conhecer e integrar regiões ainda extremamente isoladas. Dessa forma, Orellana, Pedro Teixeira e Rondon representam três momentos muito diferentes da história amazônica: a exploração europeia do século XVI, a expansão portuguesa do século XVII e a integração territorial brasileira nos séculos XIX e XX.

Atualmente, Tefé é um dos principais centros urbanos do interior do Amazonas e exerce influência sobre numerosos municípios e comunidades ribeirinhas da região. Comércio, serviços públicos, educação, transporte e atividades ligadas à pesca e aos recursos da floresta têm papel importante em sua economia. A cidade funciona também como porta de entrada para a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, uma das mais importantes áreas protegidas da Amazônia. Sua posição no médio Solimões continua fazendo de Tefé um ponto estratégico de ligação entre Manaus, o Alto Solimões e o interior da floresta.


15 de setembro

Dia tranquilo. Caminhada pela cidade. Treinamento físico.

À tarde, mudamos para o hotel de trânsito de oficiais. Mais treinamento físico com caminhada até a praça da onça e musculação na academia do hotel de trânsito.

 

À noite, jantar com o General Morgero no excelente restaurante Stylo. Ouvindo e contando 'causos' de soldado, compartilhando interesses comuns.

 

 

Prontos para chegar ao embarcadouro da lancha às 2h da madrugada.


16 de setembro

Chegamos ao embarcadouro flutuante à 1h 50 min da madrugada. Pouco depois foi organizada uma fila sentada em cadeiras de plástico.

 

Houve um pequeno atraso na saída da lancha Soberana. Deixamos Tefé eram quase 4h da manhã.

Agora são 9h 5min. Deixamos Coari há pouco. Previsão de chegada a Manaus por volta das 16h.

A Soberana é bem menor que as outras duas lanchas em que viajamos. Tem 108 lugares em fileiras de 2-2-2 assentos. Está bem lotada. Mas desenvolve uma velocidade de 56 a 58 km/h,  de acordo com o aplicativo Guru Maps.

 

Mariana me chamou há pouco do Panamá, onde está a trabalho. Alexandre e eu ficamos admirados com a tecnologia que nos permite conectar com vídeo por WhatsApp desde a imensidão amazônica. Conhecemos tempos em que nem sonhávamos com isso. O jeito era usar o rádio HF com suas peculiaridades técnicas. Às vezes conectava. Outras vezes estávamos na área de 'sombra' da onda, quando era preciso avançar um pouco antes de chamar novamente. Sem contar a necessidade de boas antenas.

Durante cerca de meia hora navegamos em meio a forte tempestade. O tempo fechou completamente. O vento causou ondas que obrigaram a redução da velocidade à metade. Depois voltou ao normal.

A largura do rio varia bastante. Em certos ponto é incrivelmente largo. Basta ver a captura de tela do Guru, notando que na parte inferior fiz coincidir a escala com as margens.

 

 

Por volta das 16h chegamos a Manaus. Aguardava-nos no porto o Roberto Stieger Leite, amigo desde os tempos de cadetes na Academia Militar das Agulhas Negras. Em sua Ford F-1000 de cor laranja, toda preparada para qualquer terreno, levou-nos para sua casa, onde ficamos alojados. Stieger é um daqueles amigos que eu não encontrava há mais de 30 anos e que, uma vez que começamos a conversar, parecia que nos tínhamos visto no dia anterior. Muito raro acontecer isso e muito especial.


Ir para a Parte 1 - Do oceano Pacífico até Tabatinga
Ir para a Parte 3 - De Manaus até Santarém