Do Atlântico ao mar Vermelho no fim do século XIX

Período: 1896-1899

A travessia do continente africano pelo capitão Marchand. (Escrito com auxílio de inteligência artificial)

Do Atlântico ao mar Vermelho no fim do século XIX

Em 1896, um capitão do exército francês desembarcou em Loango, na costa atlântica do Congo Francês, para iniciar uma jornada que, vista com os olhos de hoje, parece quase inconcebível. 

Jean-Baptiste Marchand recebeu a missão de atravessar o continente africano de oeste para leste e alcançar o Alto Nilo. Ali deveria estabelecer uma presença francesa capaz de desafiar a expansão britânica que avançava do Egito em direção ao sul. A missão tinha objetivos geopolíticos e coloniais. Sua execução transformou-se em uma extraordinária aventura militar, humana e logística. 

Marchand e seus homens penetraram pelo sistema fluvial do Congo, subiram o rio Ubangi e passaram para a bacia do Nilo. Atravessaram florestas, savanas e os imensos pântanos do Bahr el-Ghazal. Chegaram a Fashoda, no Nilo Branco, depois de quase dois anos. Quando tudo parecia terminado, prosseguiram para o leste e completaram a travessia do continente até alcançar Djibuti, no mar Vermelho.

A pequena força militar levava uma enorme carga logística. Entre os equipamentos, havia algo aparentemente absurdo: um barco a vapor feito de aço — o Faidherbe. 

Era o final do século XIX. Não havia aviões para lançar suprimentos ou evacuar feridos. Não havia helicópteros nem veículos todo-terreno. Não havia rádio para pedir auxílio. Não existiam estradas ao longo do itinerário. Durante a maior parte da jornada, alimentos, munições, medicamentos, ferramentas e peças de reposição tiveram que ser transportados com a expedição ou obtidos ao longo do caminho. 

A disputa pelo Nilo

A expedição fazia parte da intensa disputa imperialista que dividia a África entre as potências europeias. A Grã-Bretanha ocupava o Egito desde 1882 e considerava o vale do Nilo essencial para seus interesses. A França, por sua vez, expandia suas possessões a partir da África Ocidental e do Congo. 

Os britânicos procuravam consolidar sua influência ao longo de um eixo norte-sul. Os franceses avançavam de oeste para leste. Acabaram por convergir no Alto Nilo.

O estabelecimento de uma presença francesa naquela região ameaçaria a predominância britânica e daria a Paris um instrumento de pressão nas negociações sobre o Egito e o vale do Nilo. Também colocaria em questão a segurança do Canal de Suez, uma das principais vias de comunicação do Império Britânico. 

Penetrando no interior da África

Da costa atlântica, Marchand seguiu para o interior, passou por Brazzaville e utilizou o sistema fluvial formado pelo Congo e seus afluentes. Os rios eram as grandes vias de comunicação da África Central. Onde havia trechos navegáveis, era possível avançar com relativa rapidez.

Mas esses trechos não eram contínuos. Corredeiras interrompiam a navegação. Bancos de areia dificultavam ou impediam a passagem. O nível das águas variava com as estações. Em determinados pontos, era impossível continuar. Todo o material precisava ser descarregado e conduzido por terra até outro ponto navegável.

A expedição dependia de numerosos carregadores africanos. Sem eles, a operação logística não teria sido possível. Ao longo da jornada, esses homens transportaram toneladas de material através de regiões onde não havia estradas. Até mesmo as trilhas, quando existentes, eram inadequadas.

É difícil avaliar esse esforço utilizando referências modernas. Hoje, algumas toneladas de carga podem ser colocadas em um caminhão e transportadas centenas de quilômetros em poucas horas. Para Marchand, cada obstáculo geográfico exigia novos esforços e consumia um tempo precioso.

Quanto mais avançavam, mais distantes ficavam de qualquer base capaz de ajudá-los. Uma ferramenta perdida talvez jamais fosse substituída. Uma peça quebrada tinha de ser reparada com os meios disponíveis. Uma doença podia retirar da marcha um homem cuja função fosse indispensável. Não havia resgate rápido.

A única saída era continuar.

O Faidherbe

Entre todas as cargas transportadas pela expedição, nenhuma simbolizava melhor a dimensão do desafio do que o Faidherbe. Era um pequeno barco a vapor feito de aço, construído de maneira que pudesse ser desmontado e transportado.

Transporte de uma seção do vapor Faidherbe durante a Missão Marchand. Reconstituição artística inspirada na iconografia da época. 

A decisão de levá-lo tinha uma razão prática. Os rios eram fundamentais para qualquer operação militar na África Central e no vale do Nilo. Um vapor podia transportar homens, munições e suprimentos em quantidades impossíveis de movimentar rapidamente por terra. Podia navegar contra a corrente e, quando armado, proporcionava também uma importante vantagem militar.

Marchand queria chegar ao Nilo com uma embarcação própria. O problema era levar o barco até lá. Quando o Faidherbe não podia navegar, era desmontado. Deixava de ser um barco e se transformava em uma coleção de chapas metálicas, estruturas, tubulações, máquinas e equipamentos. Entre essas peças estava a caldeira, que pesava mais de 800 quilos. Tudo precisava continuar viagem.

Não havia caminhões, nem tratores, nem guindastes móveis. Em alguns trechos, as partes do Faidherbe foram transportadas por terra durante várias dezenas de quilômetros. Quando a expedição alcançava outro trecho navegável, começava o processo inverso. As peças eram reunidas. A estrutura era reconstruída. A máquina e a caldeira eram reinstaladas. Aquela massa de metal transportada pela floresta e pela savana voltava a ser um barco. O Faidherbe retornava à água.

A expedição prosseguia.

Rumo ao Nilo

A expedição chegou a um ponto decisivo da jornada: a transposição do divisor de águas entre duas grandes bacias hidrográficas. Deixaram para trás o sistema fluvial do Congo, com seus rios correndo para o Atlântico, e seguiram em direção ao Nilo. 

Vencida essa barreira geográfica, entraram na região do Bahr el-Ghazal. Ali encontraram um novo obstáculo: os imensos pântanos que se interpunham no caminho. Naquela região, água e terra frequentemente se confundiam. Vegetação aquática, canais, lama e áreas inundadas transformavam a progressão em um exercício permanente de paciência e resistência física.

Os homens adoeciam. Os suprimentos diminuíam. A distância percorrida aumentava. Mas a coluna continuava avançando.

Em 10 de julho de 1898, quase dois anos depois do início da expedição, Marchand chegou a Fashoda, às margens do Nilo Branco. Desde Loango, a expedição havia percorrido aproximadamente 4.500 quilômetros através do interior da África. 

Marchand havia chegado ao Nilo. Outros desafios estavam por vir. 

Fashoda sob ataque

O Estado Mahdista surgira em 1881, quando Muhammad Ahmad, um líder religioso sudanês que se proclamava Mahdi — o “guiado” — iniciara uma revolta contra o governo egípcio no Sudão. Em 1885, conquistara Cartum, onde o general britânico Charles Gordon fora morto. Nascera, assim, um estado islâmico independente que ainda controlava grande parte do Sudão quando Marchand chegou ao Nilo.

Marchand dispunha de uma força diminuta: cerca de cento e vinte soldados africanos comandados por oficiais e suboficiais franceses. Ocuparam as ruínas de um antigo forte egípcio, reforçaram suas defesas e se prepararam para resistir a um eventual ataque. Um mês e meio depois, em 25 de agosto, as forças mahdistas atacaram.

 

Os atacantes tinham grande superioridade numérica — cerca de 1800 homens —, mas os franceses possuíam armas modernas e estavam bem protegidos. Repeliram o ataque com grande gasto de munição e baixas surpreendentemente pequenas: apenas dois feridos.

O Faidherbe chegou a Fashoda somente quatro dias depois do combate. Sua chegada justificou o enorme esforço para trazê-lo através do continente. O barco trouxe suprimentos, inclusive uma grande quantidade de munição, de que a pequena guarnição francesa necessitava desesperadamente.

Poucos dias depois, surgiu uma ameaça de outra magnitude.

A esmagadora superioridade britânica

Enquanto Marchand atravessava a África de oeste para leste, uma força muito mais poderosa avançava pelo Nilo rumo ao sul. Era o exército anglo-egípcio comandado pelo general Herbert Kitchener, empenhado na reconquista do Sudão.

Em 2 de setembro de 1898, Kitchener obteve uma vitória decisiva na batalha de Omdurman, derrotando as principais forças mahdistas. Depois de ocupar Cartum, abriu ordens lacradas que recebera antes da campanha. O governo britânico sabia da possível presença de uma expedição francesa no Alto Nilo. Kitchener deveria prosseguir rio acima, localizar os franceses e reafirmar a autoridade anglo-egípcia sobre a região. A missão deveria ser conduzida sem provocar, se possível, um confronto armado entre as duas potências europeias.

Kitchener prosseguiu rio acima. Em 18 de setembro, suas cinco canhoneiras apareceram diante de Fashoda, transportando cerca de 1.500 soldados britânicos, egípcios e sudaneses. Diante deles, a pequena força de Marchand, isolada no interior da África e separada de qualquer apoio significativo por milhares de quilômetros.

O encontro entre os dois comandantes foi formal, tenso e cortês. Almoçaram juntos e brindaram. A história conta que Marchand ofereceu champanhe e Kitchener retribuiu com uísque. Posteriormente, o francês diria, brincando, que aceitar aquele drinque fora um dos maiores sacrifícios que já fizera por seu país.

A cordialidade não escondia o impasse. Kitchener chamou a atenção de Marchand para a evidente superioridade de suas forças. Marchand manteve sua posição, alegando cumprir ordens superiores.  Nenhum dos dois pretendia iniciar um confronto. Haviam chegado ao limite de suas atribuições.

Diante do risco de guerra entre as duas potências europeias, concordaram em remeter a decisão aos respectivos governos em Londres e Paris. 

A crise de Fashoda

A notícia do encontro transformou Fashoda no centro de uma grave crise internacional. A localidade chegou a ser descrita como “um pântano no meio do nada”, expressão que reflete uma visão europeia da região. A aparente insignificância do lugar contrastava com sua importância estratégica: as ambições coloniais da França e da Grã-Bretanha haviam se encontrado no Alto Nilo.  

Marchand havia cumprido sua missão. Chegara ao Nilo e estabelecera uma presença francesa. Sua própria façanha geográfica, entretanto, demonstrava a fragilidade daquela posição. Levara quase dois anos para chegar a Fashoda, atravessando milhares de quilômetros do interior africano. Os britânicos, ao contrário, controlavam o Nilo e podiam movimentar canhoneiras, tropas e suprimentos ao longo do rio.

A desproporção ultrapassava Fashoda. Em caso de guerra, a França teria de enfrentar a maior potência naval do mundo, capaz de ameaçar suas comunicações marítimas e seu império colonial. A pequena força de Marchand poderia permanecer em Fashoda, mas dificilmente a França poderia sustentá-la ou transformar aquela presença isolada em domínio efetivo do Alto Nilo.

Diante dessa realidade, o governo francês concluiu que Fashoda não justificava uma guerra com a Grã-Bretanha. Marchand recebeu ordem de retirar-se. Militarmente e diplomaticamente, a disputa estava encerrada.

Restava uma questão: como retirar da África os homens que haviam levado quase dois anos para chegar ao Nilo?

A escolha de Marchand

Durante a crise, Marchand viajou em uma embarcação britânica até o Cairo para manter contato direto com as autoridades francesas. Recebeu a ordem de evacuar Fashoda e retornou para junto de seus homens. 

Os britânicos ofereceram uma solução simples: transportariam os franceses em seus barcos, descendo o Nilo até o Egito. Dali, poderiam retirar-se rapidamente. 

Marchand recusou. Considerou a oferta humilhante. Chegara a Fashoda pelos próprios meios e com enorme sacrifício. Sairia da mesma forma. Em vez de descer o Nilo sob proteção britânica, seguiria para leste, atravessaria a Etiópia e alcançaria as possessões francesas em Djibouti, no litoral do mar Vermelho.

Completaria a travessia da África.

Rumo ao mar Vermelho

Em 11 de dezembro de 1898, a bandeira francesa foi arriada em Fashoda. Marchand e seus homens partiram para o leste. Iniciavam outra longa jornada através da Abissínia.

Na primeira etapa, utilizaram o Faidherbe para subir os rios Sobat e Baro, em direção aos planaltos etíopes. No alto Baro, o pequeno vapor chegou ao limite de sua viagem. Depois de todos os esforços para transportá-lo através do continente, desmontá-lo, remontá-lo e fazê-lo navegar até o Nilo, o Faidherbe foi posto para descansar. Os homens prosseguiram por terra.

Em Goré, encontraram provisões enviadas ao seu encontro e foram recebidos pelas autoridades locais. Em março de 1899, chegaram a Addis Ababa, onde permaneceram algumas semanas antes de retomar a marcha. Passaram por Harar e seguiram em direção às possessões francesas no litoral.

Em 15 de maio, estavam a apenas trinta e sete quilômetros de Djibouti. No dia seguinte, completaram de trem o último trecho da jornada e chegaram à cidade portuária. O cruzador francês D'Assas os aguardava para levá-los à França. 

Quase três anos depois de deixar a costa atlântica, haviam completado a travessia do continente africano. 

Um feito extraordinário

Um líder e seus homens. Um grupo pequeno para uma missão de importância nacional. Uma jornada rumo ao desconhecido, no coração da África. Quatro mil e quinhentos quilômetros. Terreno hostil. Selva tropical. Rios desconhecidos. Savanas. Pântanos. Doenças. Isolamento. Incerteza.

Desafios de natureza geográfica, militar e humana. Dificuldades logísticas imensas. Quase três anos de privações e sacrifícios.

Diante de todas as adversidades, prevaleceram: o senso de cumprimento da missão, a coesão do grupo e a liderança de Jean-Baptiste Marchand.

Perseveraram. Prosseguiram. Cumpriram a missão. Ocuparam Fashoda. Hastearam o pavilhão francês “no meio do nada”. Resistiram a forças militares muito superiores.

Deixaram Fashoda cumprindo ordens. Marchand recusou a opção fácil: descer o Nilo em embarcações inglesas. Considerou-a humilhante. Marcharam novamente. Chegaram ao mar Vermelho. Completaram a travessia do continente. Não com os recursos de hoje. No final do século XIX. Venceram a distância. O terreno. As doenças. O isolamento. A escassez. A incerteza. Venceram, sobretudo, a possibilidade de desistir.

Em maio de 1899, retornaram à França. Recebidos por uma multidão. Ovacionados como heróis. 

Símbolos de resistência, abnegação e determinação.